Coca e Cigarro |
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Quarta-feira, Julho 30, 2008
Para Julia, com carinho. Hoje Goiânia me lembra São Paulo. O dia cinza, a chuva fina que cai sem parar como se lavasse minuciosamente toda a rua. Em vão, vão dizer. Era melhor que o corpo cansado, a mente meticulosa, com atitudes de sarcasmo e preparada com sagacidade fossem lavados. É difícil encontrar certa paz, entretanto até o caos, com toda sua imprevisibilidade, irritabilidade ou impulsividade deixam que certo silêncio se forme calmamente e grite indicando que ainda é possível acomodar-se na tormenta. O caos me atrai. Não pelo motivo de conseguir me manter calmo ou aparentemente intacto enquanto os fatos acontecem desordenadamente como passos bêbados, mas sim por existir algo puro, que não sofre uma censura prévia e nem se preocupa com as conseqüências a longo prazo. Serei mais exato: o caos nas relações humanas me atrai. De fato, e isso já foi percebido, muitas vezes não importa o que você diz e sim como diz. E, imagine, não há expressão mais pura do corpo do que o que é expressado sob o véu de situações caóticas. O poder que advém disso é enorme, as possibilidades são infinitas. É possível, e bem provável, que uma situação caótica em um relacionamento destrua completamente o que noites (de insônia, pensamentos, raciocínio ou sentimentos) levaram meses para construir. Claro, que não seja esquecido e você sabe tão bem, no caos as pessoas acreditam naquilo que você quer que elas acreditem. É um jogo manipulativo e frenético que só joga aquele que se fecha e limita-se a conter suas expressões. A razão de mandar um sorriso e não correr vertiginosamente é simples: conhecer o outro com que o caos se formou. E, convenhamos Julia, conhecer pessoas é uma arte, seja de observação, seja intuitiva, dedutiva ou interpretativa . Conhecendo, há a possibilidade de se esconder. Escondendo-se há a possibilidade de contemplar e admirar com uma trilha sonora pacífica e calma situações explosivas e desordenadamente ordenadas. Bang bang, I shot you down. A aparente desconexão entre esses parágrafos e a intenção desse texto é evidente. Conheça a chuva para prever o caos. Conheça o caos e preveja o dia cinza, de chuva fina que insiste em descer de modo cadenciado e natural. Cito, e se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado? E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem agora eu seria? Eu gosto dela, mesmo em dias de chuva Comente Aqui! []
Quarta-feira, Novembro 21, 2007
Quarta-feira, Outubro 10, 2007
Há silêncios e silêncios. Há musicas e músicas. Escutar sua playlist me dá saudades. Escutar o silêncio me desespera. Escutar seu silêncio me acalma, me afaga, me dá um beijo. Fico com a música, fico com meu silêncio. “qual o quê dos quais e poréns, dos afins, pense bem ou não pense assim”. Só não me deixa só, não me deixe assim. Porque amo. Por que divago. Porque te quero, assim, sei lá, vai saber, hoje, amanhã. Comente Aqui! []
Sexta-feira, Outubro 05, 2007
as vezes eu queria me desapaixonar por você. confesso que só por alguns instantes, mas queria. me desapaixonar pra deixar de fazer todas as suas vontades e caprichos. desapaixonar pra sentir a dor verdadeira que me causa algumas coisas que voce diz e faz. desapaixonar pra te esquecer e me lembrar. tipo pintar o mundo mais meu e menos seu. todo mundo mente, seja por qual razão ou motivo. e vai, como alguem já disse "o poeta é um fingidor. finge tão completamente. que chega a fingir que é dor. a dor que deveras sente." vai ver to virando poeta. as vezes eu queria me desapaixonar por você. confesso que só por alguns instantes, segundo, que seja. mas queria. Comente Aqui! []
Segunda-feira, Outubro 01, 2007
praticando o desapego: acende um cigarro, joga no chão, pisa, apaga. duas doses de tequila, vira. olha pro chão, pega o cigarro, acende, fuma. banho gelado, deita. acostume-se com o desinteresse (e como ele anda grande). tenta não deixar todas aquelas "viradas de cu" do dia a dia te afetar como afetariam. "o deus do tempo, dai-me luz". paciencia, parciomonia, paciencia. segue reto, segue em frente. e seja amigo do acaso. Comente Aqui! []
Terça-feira, Junho 12, 2007
Quando Carlos Encontra a Fada Era a quinta vez que Carlos ia àquele bosque, na rua dos bobos, número zero. Alguns até arriscariam escrever musicas dizendo que ali morava um anjo ou ainda que era um lugar bonito, talvez como a terra do nunca. No máximo, tinha um estatua de um anjo, com uma expressão triste e fria, como o mármore de que era feito, e corrosões feitas pelos dias e noite sob a chuva. - Aqui jaz um anjo, comentou Carlos com uma voz semicerrada. Sentou-se, como de costume, perto de um pequeno lago, há 3 metros da estatua, no segundo banco, contando da esquerda para direita. Era um bosque que lembrava solidão, com matos crescendo entre os lírios e alecrim, pouco freqüentado e na maioria das estações do ano, aquele bosque não tinha sentido nenhum. - O dia dos namorados é um dia inventado pelas empresas de cartão e perfume, é só mais um dia pra te lembrar que você está sozinho ¿ disse Carlos enquanto procurava por seus cigarros. - Você está sentindo a mudança? ¿ soou uma voz doce, sem sotaque ou vícios aparente. - Desculpe!? - Carlos? - Sim, sou eu! - Carlos Pinel? - Sim... E você, quem é? - Eu nunca, gostei disso... É educado perguntar a alguém quem ele é? Quem é você, Carlos? Quem é você quando se olha no espelho? - Eu não tive a intenção, me desculpe. - Você sempre se desculpa por tudo. Podemos mudar isso? Posso me apresentar como quem eu queria ser? Ou quem eu acho que sou? - Fique a vontade. - Eu sou uma fada, Carlos. Carlos não conteve o seu sorriso, não de desdém ou de incredibilidade. Pelo contrário, Carlos estava realmente feliz e pelo que podia se lembrar dos muitos instantes que se passaram voando em sua mente, era a primeira vez em meses que seu sorriso não havia saído amarelo ou tivesse parado entre seus dentes. Sem cerimônias a fada se sentou, cruzou as pernas e deixou a vista seu all-star azul, que fazia uma combinação anárquica perfeita com o seu vestido, desses de conto de fada. Visto de longe, os dois se sentiam como velhos amigos. Ela possuía cabelos castanho escuro, pele alva e Carlos até cogitou a idéia de que ela não existisse ou tivesse fugido de alguma festa temática. - E então? Está sentindo a mudança? ¿ insistiu a fada com um sorriso maroto. - Estou sentindo o cigarro queimando os meus dedos ¿ disse Carlos colocando o resto do cigarro sob os seus pés. - Não brinque Carlos! Estou falando sério. Ambos olhavam na mesma direção, fixando os olhos num ponto qualquer do horizonte. Não estava nos planos de Carlos encontrar alguém naquele bosque, ainda mais em junho, 12 de junho. - Mudanças assustam, Carlos. - Mudança às vezes são bem vindas, fada. - Por que você é assim tão calmo Carlos? Por que você insiste em tentar achar coisas boas nas desgraças? - O pessimista nunca se surpreende, porque ele sempre espera o pior, fada. - Talvez, Carlos. Mas já pensou em todas possibilidades que você desperdiçou? Em todos os amores que você poderia ter vivido e você não teve a segurança na hora certa? - Isso só me lembra minha cara enfiada numa privada, despejando um vômito amargo e sem sentido, noite após noite, bêbado após bêbado, pensando que se alguém dissesse, ¿se você pudesse ser feliz, você aceitaria?¿, eu teria duvidas sérias. - Todos passam por noites ruins. - Talvez. - Não Carlos, isso é certeza. Carlos não via sentido em tudo aquilo. Como alguém que mal o conhecia podia descrevê-lo tão bem? Como podia fazer as perguntas certas ou inferir sobre seus conflitos que andavam, até então, escondidos debaixo de um travesseiro pesado, para que ninguém tivesse acesso? -Me diga, Carlos. Onde você guarda o seu antigo livro de dúvidas? Não vale começar a fumar ou tentar fazer com que o tempo passe mais rápido. - Desculpe?! - É, leia sua mentira favorita pra mim! - Eu não poderia ¿ Carlos pestaneja por três segundos. Ele estivera pensando que todos precisam da ajuda de alguém, ou encontrar alguém que entenda, ou que te faça chorar. ¿Passe longe¿, concluiu ele, ¿Não preciso dizer a ela nada¿. - Você não existe. - Melhor sorte em terras distantes, Carlos. Já tinha te visto há alguns dias atrás... Algumas coisas na vida podem mudar, outras podem continuar do mesmo jeito. - Como o tempo? - Tempo é sempre tempo ¿ disse a fada esperando que Carlos retrucasse. - Você teve todas as chances! Agora olhe para o chão e veja como ele se tornou a sua própria prisão, Carlos. - Tempo, é sempre o tempo. - Sabe o que me deixa triste? Saber que talvez eu nunca encontre alguém igual a ele. - Você não pode provar o futuro pelas experiências passadas. Você sabe que se soltar uma pedra, ela provavelmente irá cair, mas por outro lado, ela pode simplesmente voar. - Pedras me ensinaram a voar, o amor me ensinou a mentir. - Às vezes ninguém percebe a importância real. Você ainda o ama? - Acho que sim. - Ele não é um milagre e você já não é mais a mesma. - A duvida me corroí, Carlos. - A certeza me alivia, seja ela para o sim ou para o não. Um ar frio cortou o cabelo da fada naquele momento. Talvez ela não soubesse que a vida é uma viagem solitária, cedo ou tarde o caminho deveria ser trilhado sozinho. Carlos, diante de todos os flasbacks que se passavam, só conseguia procurar o seu cigarro desesperadamente. ¿E se eu desse uma desculpa qualquer, ela iria embora?¿. Resolvera mentir: - Meus cigarros acabaram, vou comprar alguns no próximo bar. - Posso ir contigo? Odeio cigarros, mas queria companhia. Pois bem, Carlos havia caído na própria armadilha. Estava predestinado a passar o dia dos namorados com alguém e justo ele que preferia a solidão enquanto todos procuravam um par ou que preferia o silencio enquanto todos desejavam falar desesperadamente sobre todas as aflições ou bobeiras quaisquer. Carlos se levantou, cogitou em correr. Cogitou por alguns segundo que ele não deveria continuar aquela conversa com a fada, não deveria tentar dar respostas que exigiram noites em que ele ficava nem totalmente dormindo nem totalmente acordado. Noites repetitivas de insônia. Era tarde, fada também havia se levantado, ¿porque ela não vai embora? Porque ela não compra fichas e liga pedindo pra ele voltar?¿. Começaram a caminhar pelo bosque. - Eu já pensei em morrer de brincadeirinha sabe? Só para ver se alguém iria chorar ou sentir minha falta. - E alguém deu indícios de que faria isso, fada? - Você ainda tem aquela carta? ¿ perguntou fada como resposta à pergunta de Carlos. - Um dia eu posso precisar. - Espero que não, você faria falta pra mim. As respostas foram pelo ralo. Fada sabia como desarmar Carlos. Ela podia ter angustias repetitivas, aflições infantis ou criar laços rápidos e profundos com as pessoas, mas ela sabia desarmar Carlos. Sabia e o fazia. - Eu não pretendia passar o dia dos namorados com alguém. - Eu não pretendia passar sozinha. A solidão às vezes machuca. - A solidão é a melhor amiga. - Só porque ela fica calada? Continuaram a caminhar num silencio que incomodava.Existem silêncios bons, silêncios que precedem um beijo ou o silencio que avisa que o sono está chegando. Este cheirava a silencio angustiante, silencio que outrora pressentia o frio coração estraçalhado em cantos vazios. - É engraçado como as coisas são Fada. Nesse momento, milhões de pessoas estão trabalhando, outras tantas estão dormindo, outras até arriscariam colocar um casaco para se preparar para o frio que chega e existem as que estão amando e transando. O mundo não pára, para você ou por você. - O silêncio te incomodou? A mim também. - É, incomodou. Não tenho muitas habilidades sociais para se manter uma conversa. Escutaria-te horas a fio, sem me perder ou sem me entediar, mas não me peça para falar. - E por quê você reclama que ninguém te escuta, Carlos? - Ninguém escuta o que realmente importa. - O dia já está acabando, amanhã ninguém se lembrará das juras de amor. - E vai ser uma mistura de desalegria com um dia normal. Carlos pára. Cruza os braços e entra num autismo invejável enquanto olha para Fada. ¿Talvez, se ela gosta tanto do amor, porque não traí-la com o amor?¿. Fada brincava com seus cabelos enquanto caminhava, distanciando-se de Carlos. Ele gritou: - Eu te amo! Fada ficou imóvel por alguns segundo. Parou de brincar com seus cabelos, pensou, ponderou, mediu. Resolvera voltar. - Como disse?! Carlos aproximou-se de fada, com passos tétricos, sem pisar nas linhas que dividiam a calçada. - Eu te amo. Essa é a minha mentira favorita. Comente Aqui! []
Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007
Cotidiano (...) - Você viu o que fizeram com o garoto na cidade maravilhosa? - Não sei, não assisto tevê direito. - Uma atrocidade! Não acompanhei direito, nem sei detalhes, mas uma atrocidade! - É... - Será que agora vão propor leis mais severas? - É carnaval. Será que resolveria o problema? - Ah, tinha que matar esses caras! Guilhotina! Cadeira elétrica! Arrastá-los em praça publica, como eles mesmos fizeram! Eu não teria coragem de fazer uma barbaridade dessas, ao inferno! - Como disse?! - Ao inferno! - Não, referia-me a antes disso. - Eu não teria coragem?! - Exatamente. - É, eu não teria coragem. - E como você propõe uma mesma punição para os criminosos? - Ah... - E como você tem coragem pra encher a cara diante de problemas? - É , mas... - Mas você fica bêbado e parte pra cima da sua mãe. - Ela entende. - E sua namorada também? Ou você acha que todo mundo cai da escada 4 vezes ao mês? - Assim você me ofende. - Pois é, e você não se ofende com o que faz? Ou é um pequeno crime e você tem lá suas desculpas? (...) - É, você não teria coragem, de fato uma atrocidade. Comente Aqui! []
Segunda-feira, Janeiro 29, 2007
Algumas vezes odiei férias verão. Não pelo calor insuportável ou pelos dias que chovem torrencialmente com total desprezo por suas vontades ou desejos. Sentia-me vulnerável, exposto ao tédio interminável que se compara a livros onde passar de 15 páginas já é um feito digno de um brinde solitário. Exposto às coisas estranhas que a vida, de leve, coloca ao lado. Por diversas vezes, inegavelmente, me sentia isolado das pessoas que soltavam risos agradáveis para o céu ou procuravam se fazer ouvir com carros e copos cheios de sons intragáveis. Sempre procurei manter um estado ébrio nessa estação do ano por duas razões: prazer e necessidade. Se a primeira dispensa explicações, a segunda, em casos desagradáveis ou perto de pessoas detentoras da mesma característica anterior, me poupa considerações, opiniões, ouvidos e paciência. A barba por fazer, os gestos calmos e leves, precedem um traje pronto para uma batalha entre duas mentes meticulosamente preparadas para um combate de indiferenças. As conversas servidas à la fast food se proliferam como epidemias, os coleguismos (ou como prefiro, amizades em porções únicas) vêm acompanhando cervejas e tragadas, com um tempero sabor dissimulado. A intensidade com que me desaponto com as pessoas é comparada com a intensidade com que elas tentam se fazer diferente. Outras tantas vezes, até dancei no mesmo ritmo de todos. Cansei, sentei, fumei e fui embora tropeçando nos próprios passos, excitado por uma verborréia descarregada ao vento. Poucas férias de verão mereceram boas recordações ou sentimentos de perda. Corrijo, poucos dias das férias de verão mereceram boas recordações ou sentimentos de perda. Seja pelas discussões acaloradas, seja pelos minutos em que o silencio se encarregava de dar a cara à tapa. Sinto falta das longas conversas, sussurradas como prece ou altas como quem canta sozinho, bêbado. Falta de chegar sob um leve desespero ao deitar na cama com um segredo encerrado no peito ou uma estrela que brilha, guardada entre documentos sem importância. Tropeçar nos próprios passos, cada um desfilando com o seu sonho, planos e desejos. Oh whatcha gonna do, Katie? O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração. -Espera. -Esperar o quê? - Não sei, só espera. Foi vago. Até, já vou. Vou compor meu samba-enredo, meu amor. Comente Aqui! []
Quinta-feira, Dezembro 21, 2006
Por diversas vezes fora avisado. Avisado sobre os perigos e possíveis desacordos entre os dualismos que pregam prazer ou realidade, o querer e poder. Triste é a descoberta do aprender a desgostar, descobrir a desalegria imersa sob o pano de uma falsa verdade, uma falsa tentativa de promover o bem-estar do outro. Vai ser melhor assim, vai ser melhor pra mim. O não querer o sofrimento alheio implica, na verdade, na não abstenção do prazer subjetivo. Propõe-se o melhor numa tentativa de submerger a liberdade da responsabilidade. Eu me livro de você, disso ou daquilo, para me ver livre de mim. E não há racionalização ou explicação que faça a calmaria se estabelecer. O tempo se prova inútil e as canções cortam os ouvidos com o leve amargo da tristeza, e tudo fica escuro, e tudo perda a graça. O arrependimento bate a porta entrelaçando futuro, passado e presente em lembranças inexistentes. Fingir que já parou de doer é uma tarefa árdua e ineficaz diante de um dia nublado da primavera. Se antes tudo que se queria era organizar meios de se para o tempo, agora tudo que lhe resta são cigarros queimados constantemente, na tentativa de que o tempo passe o mais rápido possível e apague tudo que se tornou uma foto de dezembro. Comente Aqui! []
Quarta-feira, Outubro 18, 2006
Prólogo ¿ De Encontros e Desencontros -Dizem por aí que a chuva vem mesmo pra refrescar o calor desses corpos suados cheios de dividas e duvidas, que vem pra molhar as plantas e sacudir as telhas velhas das casas. Lavar a alma, os pecados, limpar a consciência. Dizem que a chuva vem mesmo é para... Carlos encontrava-se em uma escrivaninha, surrada pelo tempo, esquecida pela empregada. A sua frente uma janela, embaçada pelos seus olhos que estavam sem óculos, molhada pela chuva que respingava do lado de fora. Ajeitava seu chapéu panamá, segurava em uma das mãos uma garrafa longneck de uma cerveja meio cheia, meio vazia e na outra um cigarro que podia oferecer um ou dois tragos ainda. Sob uma luz fraca, ajeita-se na cadeira e volta a repousar seus dedos sobre a máquina de escrever. - Lavar a alma, os pecados, limpar a consciência. Dizem que a chuva vem mesmo é para... Seu pensamento é interrompido por leves batidas na porta que anuncia a presença de outrem ¿ Vem mesmo é para confundir, como um grito num quarto escuro, como... ¿ a porta se abre e a luz do corredor ilumina dois terços do quarto ¿ como um suspiro de desprezo. Carlos é interrompido. - Vai Carlos ! Ser gauche na vida! ¿ diz uma Angélica com roupas molhadas. - Angélica! ¿ ressoa pelo cômodo frio, enquanto Carlos anda rapidamente para cumprimentar a nova presença. Angélica, pele branca, cabelos negros, olhos castanhos, vestindo uma calça jeans e uma blusa baby look, cumprimenta Carlos como de costume, com um leve abraço e um olhar de esgueio. - Saudade de você garota! - Vou matar todos os ônibus da linha São Paulo /São Miguel e vou dar dez tapa na cara de cada motorista... Carlos não contém o riso enquanto tece comentários sobre o humor de sua nova companhia. - Você e seu humor, estava com saudades disso. - Eu também senti sua falta Carlos. Carlos de estatura mediana e franzina, óculos quadrado e torto, anda pela casa em busca de algo que contenha uma concentração alcoólica maior do que sua cerveja que repousa sobre a mesa. Encontra três doses de vodka em uma garrafa empoeirada pelo tempo que o armário não conseguiu proteger. - Quer algo para esquentar Angélica? - Não, obrigada Carlos. Acho que preferiria um café. A intimidade suspensa pelo tempo é recuperada em apenas cinco minutos, enquanto Angélica anda rumo a cozinha, a procura de utensílios para preparar o seu próprio café. - E como você está Carlos? Você tem se trancando há muito tempo nesse quarto. Carlos encontrava-se com os olhos fixos na janela, acompanhado de um cinzeiro que flutuava no braço do sofá, absorto na chuva que caía, esparramado em seu sofá de cor escurecida como se tivesse digladiado com seus anseios e frustrações durante toda a chuva. Alisando a boca do copo, Carlos responde a Angélica: -Ahm... Eu... Eu estou bem. Quer dizer, colecionando ausências, faltando a desencontros. - termina ele com um leve sorriso entre os lábios ressecados. -(risos) Você continua o mesmo Carlos! Não devia ter sumido nesse último ano. Angélica caminha senta-se no sofá com sua xícara de café entre os dedos, enquanto Carlos acende um cigarro e repousa-o no cinzeiro. - Também senti sua falta Angélica. As coisas tomaram rumos estranhamente inacreditáveis durante esses cinco anos. Mas é aquela coisa, cabeça velha nunca muda. Eu já nem choro mais. - É, lágrimas não compram cigarros. - Só consomem, diz Carlos com um sorriso de devaneio escapando entre os dentes. - E como vai aquela garota? - Vai pra longe, foi embora com todas as outras. - Triste. - Deveras comum. - Auto-sabotagem desenfreada. Os dois se aproximam, ficando distantes apenas por um beijo, fazendo com que Angélica sussurre entre os pingos de chuva: - Sonho? Carlos encontrava-se em uma mesa, surrada pelo tempo e esquecida pela empregada. Sobre a mesa um rádio dita vagarosamente as palavras tiradas de um filme ¿...seu potencial é infinito...ele poderia fazer alguma coisa certa. Ele poderia ser Einstein, ele poderia ser Di Maggio.¿ -Há quanto tempo ele está assim? ¿ pergunta uma voz feminina -Há cinco anos mais ou menos. ¿ diz uma voz apressada. A imagem revela um Carlos trajando uma espécie de pijama, com a barba por fazer, óculos limpos e olhar fixo num bosque distante que se apresentava pela janela. - E esse estado catatônico perdura por quanto tempo? - Mais ou menos um ano, desde a ultima mudança de remédio. -Antipsicóticos? Ouve-se ao fundo o rádio que continua a anunciar as palavras de um velho filme ¿Isso te faz pensar em que você poderia ter sido. Enxergar o que você tem sido. Você não é Einstein, você não é nada¿. Os especialistas sentenciam, esquizofrenia. Carlos deixa escapar um sorriso dopado, que sai de suas barbas, flutuando pelo ar sem encontrar nada para se apoiar e se fazer refletir. Comente Aqui! []
Terça-feira, Agosto 22, 2006
De fato me lembro. Talvez não tão bem, porém não tão mal. E perco os mínimos detalhes a cada dia, mas procuro não perder a essência ou me perder procurando lembranças esquecidas. Indubitavelmente algumas pessoas são melhores que outras, tão melhores que podem se dar ao luxo de calar-se sem que o silencio torne-se incômodo. Já reparou como as pessoas precisam falar descontroladamente para se sentirem aceitas ou confortáveis? Eu fico aquém dos acontecimentos, esperando que todos falem além do necessário, além do que precisa ser dito. Explico-me em alta freqüência para tentar esquecer o que não precisa de explicação ou análise. Pseudo intelectualismo para me sentir perto, necessário, não descartável. Do contrário, seria eu um fast food? Em que tudo, da embalagem ao canudo, é jogado ao lixo e reciclado? Deve ser por isso que a maioria das amizades e encontros vem em porção única, econômica, compacta. Uso único. Projeta-se necessidades, desejos, conflitos e medos numa busca descontrolada por paz. O que eu sou, o que fui ou o que serei, não interessa. Ouça o que convém, assuma que precisa sim de todo cuidado. Quem você seria se pudesse mudar? Indubitavelmente, algumas pessoas são melhores que outras. Pena seria se fôssemos todos iguais. Fica bem, sempre. Para Katie, com carinho. Comente Aqui! []
Sábado, Junho 03, 2006
Tenha um cachorro, plante uma arvore e escreva um livro, faça o que você não fez ainda. Se não valer a pena, acabe com seus conflitos internos e descanse em paz.Dance como um bêbado e o equilibrista e apresse a queda com cigarros e coisas perigosas. Faz tempo que não choro. Comente Aqui! []
Quarta-feira, Maio 31, 2006
texto curto sobre coisas abstratas -Seus olhos estão fundo Carlos... você tem dormido? - ¿Woodstock queria voar para horizontes distantes, mas ele não sabe onde ficam¿ - Entenda Carlos, todo mundo se perde um dia. -Eu me perdi um dia... E durante a noite para variar. Vendi minha alma pela segunda vez, porque eles não me pagaram na primeira. Comente Aqui! []
Terça-feira, Abril 11, 2006
¿...seu potencial é infinito...ele poderia fazer alguma coisa certa. Ele poderia ser Einsten, ele poderia ser Di Maggio. Isso te faz pensar em que você poderia ter sido. Enxergar o que você tem sido. Você não é o Einsten, você não é nada.¿ (Confissões de uma mente perigosa). E mais uma vez eu vou dormir, fingindo ser alguém que vive assim de bem segunda, 11 e 33, chuva e pessimismo. eu tentei fazer com que... não tentei. talvez não tenha tentado o suficiente ou do jeito certo. as coisas mudas que eu escuto da sua boca fazem meu cinzeiro encher de bitucas e cinzas. tudo para se evitar o viés que vem de suas mãos. sentimento reverso, deveras insuficiente. eu já sei de cor o modelo da senil indiferença que por diversas vezes escutei entrando pela janela do quarto. Devaneios desnecessários, desperdiçados durante as ultimas horas de insônia. O copo de café me aquece mais do que o deixa ser como será. possibilidades de um eterno brilho descartável em metáforas de escárnio. a véspera do desespero é acompanhada pelas folhas que morrem ao frio que chega pelo lado de dentro. do pouco que sobrou, não se faz milagres, mutretas ou se tira leite de pedras. fico longe, fique bem (até que o chão pare de faltar sob seus pés). Comente Aqui! []
Quinta-feira, Março 30, 2006
Maços de cigarro ( e um pouco de coca para ajudar a descer) Roda mundo, constante e lentamente, me deixe tonto antes que eu caia, me deixe no chão a mendigar o ponto final que falta nos meus pensamentos inacabados. Abaixe o som, desligue a TV e apague a luz. Você sente o peso que a cama tem às suas costas? Afunde a cabeça no travesseiro e pense que seria bom escutar coisas bonitinhas. Mesmo que sejam mentirinhas encantadas com asas de borboleta. Aprenda a viver com a insegurança e incerteza. Siga o seu lado mal. Roda mundo, mas rode ao contrário, se assim continuar, tudo se dissolve. Hoje todo o cigarro que eu puder comprar vai ser deveras insuficiente. (frio... frio... e sai pra fumar o 10º cigarro de esquecimento) Comente Aqui! []
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